Virar as coisas do avesso

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Virar as coisas do avesso,

virar você mesmo, de dentro para fora,

ver as curvas da alma que jamais são expostas por dentro,

dói.

Reparei-me, novamente, diante da situação mais frustrante para mim, a existência da possibilidade, mesmo que pequena, de amar outro alguém. Será mesmo possível? Amar? Não, antes mesmo de saber eu me recuo, por segurança, por medo, com certeza.

E talvez, mais uma vez, eu deixarei o barco partir, ficando no meu porto seguro, agarrada aos tocos de madeiras, imóveis.

Sufocada.

Prometi a mim mesma que não ia me decepcionar, sim, eu fiz. Eu sinto, literalmente, a dor no peito, devastando tudo que ver pela frente.

Elizandra Joana

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Um conto sem fim

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Uma gota, outra gota, parou! Sangue… e tudo de novo, se repetindo a cada hora.

Poderia descrever com precisão os detalhes da parede branca do quarto mortífero. Cansada de ver o cartaz mal posicionado e quase caindo da parede, avisava que as coisas não são descartáveis, portanto, não poderíamos jogá-las fora, teria lido a frase diversas vezes naquele dia, seu cérebro estava automatizado em olhar aquele maldito pedaço velho de papel. Tinha que fazer alguma coisa, pensou, agora, em voltar sua atenção para os detalhes de um ventilador, suspenso na imensa parede branca, olhava tanto para ele que a visão externava tudo que havia ao seu redor, um universo de parede. O ventilante estava esquecido, sujo, curvado para o seu teto, fitando o chão também sujo, aliás, tudo que ali estava era podre, imundo. Ela também estava nesta posição desprezível, apenas os olhos arregalados para o objeto empoeirado, quebrado, parado, mas NÃO DESCARTÁVEL.

Todos os corpos que ali estavam, não eram descartáveis, mas naquele dia, naquele estado, estavam mortos, consumados, mas ninguém poderia enxergar a realidade. Insistiam na vida, numa ilusão, e… mais uma vez:

Uma gota, outra gota, parou! Sangue…

O vazio dentro de cada um era devastador, doía como se tivesse sido arrancado, tirado todo o estômago, mas essa sensação foi cessada quando a comida veio sob um carrinho, empurrado com bastante êxito e euforia, quebrando o espírito do ambiente e trazendo alegria.

– Comida, gente, comida!!

Só assim os olhos, todos os olhos, voltaram-se para a mesa ambulante, já sendo preenchidos pelo entusiasmo do efeito ao verem os pratos transbordantes, o sustento dos descartáveis.

As gotas continuaram a cair, mais lentas, cada vez mais lentas, seguidas do sangue que enchia os olhos da menina faminta, a comida era uma alegria instantânea, a árdua certeza de que a vida é um monstro horrendo, se alimentando dos nossos fluidos do íntimo ser cansado, nos deixando na beira do abismo, sem sabermos se vamos ser mais uma gota a descer, ou o sangue que traz a vida, o extremo do sofrimento impuro.

Elizandra Joana

Viúva negra

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I

O caco de vidro entrou no corpo que estava sobre a cama, demasiado em Whisky. Levantou-se e foi embora.

II

O dedo estava cansado de tanto arrastar rostos desconhecidos e inúteis para o lado esquerdo da tela do aparelho. O movimento já tinha se tornado automático, deve ter passado alguém aproveitável naquela loja humana, mas não o viu, seu olho apenas enxergava, não conseguia distinguir algo.

O clima estava mais frio naquela época do ano, os ventos sopravam mais violentos e um deles fez fechar a janela, a qual permitia que a brisa corresse dentro de casa. Isto a chamou sua atenção, já que fizera um barulho e a tenha tirado da hipnose, com a janela fechada, a casa ficou abafada e tomada pela escuridão, já que não gostava de luz elétrica para o dia, tratou logo de ir abrir a janela. Cuidou que ela não voltasse a se fechar mais, como nos velhos tempos, pós um papel cuidadosamente amassado em suas dobradiças, não queria levantar sempre da sua confortável poltrona preta com bolinhas vermelhas, uma vez que se aconchegasse nela, seria difícil encontrar novamente sua posição mágica.

Quando havia se sentado em seu trono, o celular a surpreendeu, um número não registrado, mas conhecido estava chamando. Hesitou em atender, sabia muito bem o que ia acontecer se ousasse dizer um “alô” para a pessoa do outro lado da linha. O barulho infernal zunindo em seu ouvido lhe convenceu a acabar com a tormenta. Atendeu, por fim.

— Oi.

— Como é bom ouvir sua voz, pensei que não iria atender, minhas esperanças já estavam acabando. Já faz um ano…

— É, eu sei disto. Preciso mudar o ringtone do meu celular, é infernal.

Um riso estridente surgiu do outro lado.

— HAHAHAHAHA… Você continua muito engraçada.

— Hum, tanto faz… O que queres?

— Presumo que já saiba, mas não me custa lembrar-te qu…

— Pera! Se for aquele papo novamente de que você é diferente e me entende, que se eu lhe der mais uma chance e deixe meu bobo medo de lado poderemos, assim, ser felizes, não aguento mais ouvi-lo.

— Mas e-eu…

— Olha, acabou, entendeu?! Preciso desligar, o meu café é mais fervoroso que esse nosso romance.

Não esperou nenhuma resposta e antes que ela fosse dita, desligou o celular. Ele ligaria outras vezes, ela sabia, por isso deixou o aparelho no silencioso e foi tomar seu café da tarde, o eterno companheiro.

III

Emma morava sozinha há um ano e alguns meses. Antes dividia sua casa com Pedro, o mesmo da ligação. Em sua memória só ficara as boas lembranças, milhares risadas gostosas que deram ao assistirem filmes de terror, riam da forma como os atores se comportavam iguais a de outros filmes, as burrices que cometiam ao caírem nas emboscadas dos vilões. Lembrara das vezes que transavam, a conexão que existia, o contato entre os corpos, como se conheciam, enfim, agora só restava imagens.

Ela é escritora, mas não é muito conhecida, apenas alguns leitores estrangeiros, já que escreve romances regionais, porém em inglês. Como a profissão não lhe rendia uma boa condição ou a permitia se sustentar com o pouco dinheiro, dividia os gastos com o companheiro.

Ele era sócio de um bar underground, junto com seu ex colega da universidade, o lugar não era muito visitado, a maioria dos clientes eram amigos que não aguentavam a correria do cotidiano e procuravam o local por ser acessível e confortável, era o único estabelecimento, na verdade, que podiam ir nas horas livres. O nome do bar era Deniel’s.

A união acabou por enjoo, segundo ela. É complicado de entender, num momento de suas vidas, eram o casal ideal, perfeito, mas com tudo no mundo tem um fim, ou quase tudo, não tiveram outro caminho.

Ela continuou morando no mesmo lugar, ele passou a morar e trabalhar no bar, havia um quartinho nos fundos, antes era usado para estoque de bebidas, agora guarda também um coração desolado.

Emma teve que se virar para poder bancar sua moradia, conseguiu um emprego numa revista, contatou algumas pessoas, velhos amigos da universidade, que lhe ajudaram com isso. Passou, então, a escrever artigos para a revista Natureza, uma revista que retratava as relações humanas, era um tema de seu interesse, pois tinha muita curiosidade para compreender como funcionava, tendo em vista que ela até já tinha lido alguns livros de filósofos, como Nietzsche e Bauman. Tudo a encantava, o mundo e, consequentemente, a natureza. Estava em casa trabalhando para a revista.

Paulo sempre ligava, às vezes só queria saber como ela estava, mas nunca perdia a chance de tentar mudar a ideia de Emma, ela não se conformava com o fim, ou apenas queria um recomeço.

Algumas vezes, ela se excedia no vinho e acabava ligando para ele:

— Passa aqui em casa, mas só hoje, SÓ HO-JE!

Ao acordarem, nas manhãs seguintes, a dureza dela voltava, fazendo-a se arrepender do que tivera feito. Mandava-o ir embora e nunca -NUNCA- mais voltar.

IV

A noite já tinha caído, tinha terminado os afazeres domésticos, agora teria que concluir o artigo já iniciado para a revista. Falava sobre como as pessoas se comportam diante de desconhecidos, mas não tinha nada em mente ainda para acrescentar.

Sentou-se em sua poltrona, pôs uma música baixa no mp3, “Young men dead”, The Black Angels.

 Fire for the hills pick up your feet and let’s go

Head for the hills pick up steel on your way

And when you find a piece of them in your site

Sentiu uma inebriante paz adentrar em seu corpo, foi tanta que seus olhos juntamente com seu corpo se reviraram ao ouvir a música, e, por um tempo, desvairou ali. Foi interrompida, mais uma vez, pelo seu celular, desta vez uma notificação do aplicativo de relacionamentos. Um rapaz a curtiu, “It’s a Match”, dizia a mensagem na tela, o nome dele era Peter, por coincidência. Desbloqueou-o e analisou o par, no mesmo momento ele falou com ela, disse que havia gostado do seu gosto musical descrito na biografia e que ela era muito bonita, nem acreditava que estava usando o aplicativo. Na verdade, nem ela acreditava nisto.

Suas conversas sempre iniciavam sobre músicas, sempre recebia elogios por seu bom gosto, por outro lado, ela o achava desinteressante, o moço, só salvando o corpo, o físico. Não era de seu feitio ficar com alguém apenas por aparência, mas algum desejo o rapaz despertara nela, não sabia qual.

Após alguns dias de conversa, combinaram de sair, foram direto ao ponto, iriam se ver num motel, afastado da cidade. Afinal, só se queriam para um sexo casual, nada mais, e quem sabe, dificilmente, ele poderia ser um parceiro fixo para isso.

V

Vestiu-se com sua jaqueta preta, não esquecendo da calça de couro e suas botas, também na cor preta. Delineou os olhos e, para os lábios, batom vermelho, forte. Como o bar do seu ex era próximo da casa de Emma, ela passou lá para comprar uma bebida e assim abastecer seu cantil durante a noite.

— Oi, Pedro. Eu quero um Whisky, por favor.

— Oi!!! Como você está? Nossa, aconteceu algo, nunca vi você assim…

— Estou bem, ótima. Não, ainda irá acontecer.

Pagou a bebida e saiu, o ambiente parou, como se já soubessem que ela iria transar, ou talvez era a consciência dela gritando mais alto. Depois do seu término com Pedro, deu um tempo para si mesma, algo bem clichê.

Do lado de fora, esperou o táxi chegar. Tirou o lacre da garrafa e derramou no cantil, guardou a garrafa na bolsa. Apreciou a bebida paulatinamente, sentindo descer tórrida, ardente garganta abaixo. Era o gosto da morte, deleitava-o.

VI

De longe avistou um homem alto, suas nádegas estavam bem marcadas na calça jeans branca, ele pagava o táxi quando alguém lhe surpreendeu por trás.

— Olá, Peter.

— Ah, oh… Emma, prazer!

Após os cumprimentos iniciais, subiram alvoroçados para o quarto que já tinha sido reservado e pago por ele, não trocaram muitas palavras com a recepcionista, era uma bonita mulher, usava um batom roxo, chamativo. Ao entrarem no quarto, Peter disse que precisava ir ao banheiro, não demoraria. Ela respondeu consentindo a cabeça ao mesmo tempo que bebia mais um gole do Tennesse.

Quando ele voltou do banheiro, ela já estava deitada, havia tirado suas roupas e sapatos, agora somente de calcinha, preta. Ele deitou sobre seu corpo, em chamas, por conta da bebida, batimentos rápidos e fortes podiam ser sentidos ao encostar sobre seu ventre. Nenhuma palavra foi dita, apenas imaginada, os olhos se encarregavam de transmitir a mensagem, olhos famintos pertencentes aos dois corpos vorazes. Atracaram-se. Poupo a pouco tomavam velocidades nos seus movimentos, quase como uma luta, mãos se entrelaçavam. A respiração não podia ser contida em silêncio, logo, alguns gemidos escaparam da boca dela, seu peito não suportava tanto desejo, euforia, adrenalina. Como dois lobos, embriagados, verdadeiros loucos.

Emma não distinguia nada do que estava acontecendo, em alguns momentos fechava seus olhos e deixava que seus braços e pernas tomassem seus próprios rumos, apontando para todos os lados, uma bússola descontrolada. “She’s lost control”. Nos surtos de sua mente confusa e alcoolizada, a imagem do bar lhe assombrava, lembrava do momento que havia entrado no bar, Pedro, Peter. Com o susto de ter visto o ex, a lucidez voltava ágil e a fazia cair em terra, situando-a naquele quarto de motel. Virou-se rapidamente, pondo Peter sob seu corpo, de frente para ele dançava, rebolava, sua cabeça girava louca, cabelos assanhados, certamente estava sendo a foda mais inesperada da sua calma vida.

Abriu os olhos e viu traços familiares, mais uma vez estava vendo o Pedro, ele de olhos fechados com as mãos em seus seios, apertando-os brutamente, se deleitando dos primeiros calafrios de um gozo iminente. Emma mudou sua expressão, agora olhava fixamente para aquele rosto, enojada, nauseada, aumentou a velocidade gradativamente, ao ponto que sua visão se tornava mais real, carnal, viva, assustadora. Mais forte, mais forte, mais forte, pulou, pulou com toda força naquele corpo, ela queria matá-lo. Mas como? Estava presa, sendo sugada por aquele desejo imenso vindo do seu interior e pulando para como grito, berro, choro, mãos batiam na cara dele, e ele gritava, adorava o toque, arranhões. Ela pegou agarrou o pescoço, desesperada, metia com força e apertava mais um pouco, quero mata-lo, pensava. Lembrou-se da garrafa de Whisky dentro de sua bolsa pendurada na cabeceira da cama, esticou a mão e conseguiu alcançá-la, abriu a garrafa, tomou um grande gole, capaz de derrubá-la com tamanha quantidade alcoólica, ao voltar sua cabeça não se segurava, sua mão não pode suportar o peso e deixou caí o líquido sobre Peter, que agora era o Pedro, um surto de loucura veio em mente, sua repulsa fez quebrar a garrafa na cabeceira da cama, rápido demais para ele impedi-la, olhou uma ultima vez para o rosto, gritou e com toda a dor dentro de si, enterrou o resto da garrafa pontuda que sobrava em suas mãos, esfaqueou o homem. Varias vezes, com força, a primeira lhe imobilizou, desmaiou, talvez em gozo ou pela forte pancada em sua cabeça. Emma apenas fechou os olhos, esfaqueou, novamente, inúmeras.

De supetão se deu conta da poça de sangue que tinha se formado ao seu redor, manchou grande parte da cama. Levantou-se rápido, foi ao banheiro, tomou uma ducha, lavou as manchas de sangue em suas mãos e rosto. O choque tivera sido tão grande que a fez voltar pouco a pouco a sobriedade. Vestiu suas roupas, pegou a bolsa e saiu do quarto, estava no segundo andar, ao descer viu um homem na recepção, sua visão estava embaraçosa, o mesmo sorriu para ela, Emma não retribuiu o cortejo, apenas foi embora, andando sozinha pela estrada, carregando em seu peito uma demasiada escuridão, estava vazia. Viu um matagal ao lado, era o único lugar mais seguro para correr. Seu lobo interior uivava, corria, seguia a lua, adentrou na mata, pulando cercas e pequenas plantas, quando sentiu que estava longe de onde estivera anteriormente, seus passos encurtaram, gradualmente, confundiram-se e o corpo foi ao chão. Desmaiou em demasiada confusão.

Elizandra Joana

A substância humana

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“Nur noch ein Gott kann uns retten.”

Quando me recluso em meu quarto e

fecho as postas do meu coração

É por medo, medo que vejam

aparente e nítida minha desgraça

É tanta que exala alto e colorida sob

meu corpo

Morto e fraco

Os olhos me apedrejam por pena,

Procurando findar o sofrimento.

É por medo.

Elizandra Joana

FRENESI

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“Look up here, man, I’m in danger

I’ve got nothing left to lose

I’m so high it makes my brain whirl”

A cadeira de madeira, envernizada, preservando sua cor natural. Parece-me que quem a fez passou para a mesma toda a sua brutalidade. Suas partes eram iguais, mesmo corte, finos, afiados, uma superfície acidentada.

A dureza da cadeira fazia doer minhas pernas, sentia-me adentrando naquela natureza, abrupta. Tentei mover as mãos para findar a agonia, mas a força que havia em meus membros não foi capaz de me libertar do carma.

A confusão de reflexos em minha mente agoniava-me, impedindo de ver o que ali tinha. Sabia que a loucura estava ao meu lado, me observando, com as mãos em sua boca, disfarçando um riso ou choro desesperado. Sua face é confusa e muda constantemente, não posso me mover, socorro, ela aproxima-se cada vez mais, sentou perto dos meus pés, curvou-se e me tocou.

Mar.raio.monstro.mosca.

O choque que me causara, deixou-me debilitada para mais uma vez tentar escapar. Uma força me segurava, não posso me mover, socorro.

A umidade do local me causava arrepios, não havia odores, apenas o ar que abria meus pulmões quase que cansados.

Molhados?águarioriacho.Vagina.

O gelo emanava meu interior, deve ter congelado também meu coração, pois não o sentia batendo em mim, mas doía, meu corpo torturava-se.

A cabeça pesada, desolação. O que acontecera ali? Um suplício? Da sala, uma música agoniante tocava, baixa, como a morte chegando aos poucos, acompanhada pelos zumbidos da mente, confundiam-se com as palavras. Sacudi-me, algo pulou para longe e voltou na mesma medida que foi, rasgou, forçou a entrada, intruso. Perdi o controle, eu perdi o controle.

Monstrospretosraios.Sombrio.

O homem que cantava cansado, transpassava para mim sua angústia, a melodia era triste, com muita força eu conseguia ouvir sua voz  aflita, mortificada.

Acabou, saciou-se e saiu pela porta, pude ver sua sombra lhe acompanhando, aos poucos a normalidade se apossava do espaço, fiquei tranquila. Coração, mãos, pulmões, tudo, voltara a sentir o sopro da vida.

Adormeci.

Um toque medroso sutilmente encostou em meu rosto, ajeitou meu cabelo, sussurrou algo em meus ouvidos, não entendi. Acordei, aos poucos pude perceber onde eu estava. Soltou-me de cintos que me prendiam à cadeira, meu corpo mole, caiu sobre seus braços, minha respiração ofegante, pós morte, tomando espaço dentro do meu corpo. Colocou-me sob a cama. Carinhosamente fazia cafuné em meus braços. E chorava, silenciosamente, mas podia ouvir seus soluços. Aproximou-se do meu ouvido, o ar quente soprou, falou-me baixinho:

— Acabou, filha. Estou aqui com você, não tenha medo. Acabou filha, acabou.

Elizandra Joana

Sobre sentimentos

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Nada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.Nada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nadaNada.nada.nada.nada.nada.nada.nada.nada

Nadaaaa…nada.

nadanadanadanadanadanada.

Um tudo.

Elizandra Joana.

Fera

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Andar, correr pela noite
Sumir
Como um lobo uivante
Sem dono
Sem vertígio de vida
Inato
Noturno
Inebriante

Subirei à montanha
Encontrarei a lua
As estrelas e
Eu.

Elizandra Joana

Sórdido

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    Estava a 120km/h, meu Impala 67 ia extravagando pelo o caminho com o seu grunhido do motor, fazia união perfeita com o blues que tocava no radinho do carro. Sentia-me no velho oeste, caminho deserto e árido, a lua em sua forma mais perfeita e brilhante, se escondendo aos poucos por trás das nuvens, como se fosse uma dama sensualizando para mim, fazia-me ficar hipnotizada com sua cena. O cigarro que havia em minha mão disputava com o volante, na outra mão havia uma garrafa de vinho pela metade. Eu não sabia para onde estava indo.

    De longe, avistei um homem ou mendigo, sentado à beira da estrada, ao seu lado havia algo como um saco preto, o que parecia um violão pelo formato. Diminui a velocidade na expectativa de que o mesmo fosse pedir carona, mas não percebi nenhum movimento brusco do rapaz ao ver um carro se aproximando dele. Parei-o mesmo assim, saí do carro e fui em direção ao homem, ele me olhou e não falou nada, sentei-me ao seu lado, continuou ali, gélido. Vestia calças jeans folgadas, havia lama na borda e alguns espinhos presos nela, e uma camisa preta, também com aspecto de suja.

    Eu não tinha medo, mesmo que tivesse eu o ignoraria, sempre deixamos de fazer algo por conta do dito cujo, medo. No bolso da minha jaqueta havia uma caixa de cigarros recém-aberta, peguei-a e ofereci um ao pobre homem, este moveu sua mão que estava posta sobre o queixo e levou-a em direção ao bolso dele, tirou um cigarro um tanto amassado e o isqueiro. Acendeu-o. Não falamos nada por um bom tempo, até que eu me sentei de frente para ele, queria ver seu olho, seu rosto, sua boca, este olhou-me novamente, mas não falou nenhuma palavra. Fiquei observando seus olhos negros, carregava neles um mistério, penetravam-me gradualmente, a cada piscar eu me perdia em sua imensidão obscura. Peguei uma de suas mãos e apertei forte, foi possível sentir o calor ao toque, trocas de temperaturas, eu fria, gélida, ele quente, tórrido. Soltei sua mão e com movimentos leves, levantei sua cabeça que por sua vez estava cabisbaixo, para ele enxergar a beleza que estava sobre seus olhos, mas este movimento foi em vão, o homem voltou em sua posição inicial, estranhei tamanha desilusão ao ver a lua, talvez só eu teria esta obsessão lunática. De relance, aproximei-me dele e beijei sua testa, deixei-o ali, na beira da estrada vazia e quieta, andei até meu carro, olhei mais uma vez para a lua e soltei um ar de riso, entrei no Impala, a música ainda rolava no rádio, aumentei o volume e saí, deixando para trás o ronco e o rastro da gaita que ecoou pela estrada.

    Durante o caminho, da minha cabeça não saía a lembrança do moço antes visto, mas não me estranhou seu comportamento, aliás, nada me estranhava.

    Meu cigarro e bebida estavam me deixando incitada, enérgica. Pisei fundo no acelerador, queria sair o mais rápido possível daquele ambiente. Era em noites como aquelas que eu me sentia viva, livre, pensando bem, nem tão livre, pois estava presa às noites, à escuridão.

    Após um tempo dirigindo, avistei um desses barzinhos do meio da estrada. Encostei o carro, fiquei por volta de cinco minutos observando o ambiente, saí e fui em direção ao local.

    Ao entrar, não avistei mais de dez pessoas ali, como o lugar estava praticamente vazio, notaram a minha chegada e olharam-me torto, forasteira. Todos estavam em suas mesas, o balcão, por sua vez, encontrava-se vazio, decidi então sentar-me lá, reclusa. O garçom veio de imediato me atender, já tinha os seus cinquentas e poucos anos, uma barba branca e era muito magro. Pedi uma cerveja, já havia me cansado do gosto do vinho misturado com o de cigarro que estavam em minha boca. O fez, trouxe-me o que pedi e ficou me olhando, de pé, braços cruzados, olhos atentos para cada movimento que eu fazia. Não me senti envergonhada, continuei bebendo sem retribuir sua indignação. Senti-me curiosa em relação ao lugar, olhei para meu lado, vi três rapazes conversando, estavam muito bêbados. No outro lado, havia uma estrutura pequena, um palco, não tinha ninguém se apresentando, porém nele tinha uma banqueta e um violão descansando em seu suporte, ao chão, um saco preto, por coincidência, mas não dei atenção ao fato. Terminei a bebida, pedi outra ao magricelo e fui até o palco. Neste momento, todos voltaram a me olhar, vi alguns curiosos cochichando algo em ouvidos alheios.

    Assim como todo o ambiente, o instrumento aparentava ser bem velho, destroçado. Porém ainda dava para tocar. Para aquela situação, lembrei-me das músicas do Bob Dylan, ele tinha uma voz de bebum sofredor, seria uma boa, mas a canção que tocava em meu coração no momento era Hurt, do Johnny Cash. Quando toquei as primeiras notas da música, alguns dos que ali estavam, abaixaram seus rostos de inquietação e deram longos goles em suas bebidas, fechei meus olhos. Meu corpo entorpecido, ao tocar a música, sentiu todo peso sair em minha voz, minh’alma cantava por mim, o barulho dos copos contra as mesas acabou, silenciou, aos poucos, o lugar só resplandecia com a música, uma linda e forte música. Ainda com meus olhos fechados, toquei a música como se fosse minha última vez, como se estivesse sentada na cova, esperando ser jogada e enterrada. Acabei minha apresentação naquele ambiente sujo. Felizmente não aplaudiram, queria mesmo que eles continuassem soando a música em seus fodidos corações, assim como ela ecoa no meu, há eternidades.

Hurt hurt hurt hurt hurt…

    Ao abrir meus olhos, a claridade me cegou por instantes, mas vi um ser de pé na porta de entrada do bar, por fim reconheci, agora era-me familiar. Imaginei que ele tivesse visto a minha apresentação, mas não moveu um dedo sobre tal. Meu tempo, ali, já acabara, joguei o dinheiro sobre o balcão e saí sem esperar o troco, apenas com minha bebida. Cheguei de frente para o homem que atrapalhava minha saída, parei e olhei-o em seus olhos, ele não saiu da minha frente, sua face demonstrava autoridade, poder. Não me intimidei, com a mesma mão que segurava a garrafa de bebida, o toquei na intenção que este saísse do meu caminho. Havia um homem no meio do caminho, no meio do caminho havia um homem, parafraseando o Drummond. Ele não saiu, e todos que ali estavam, observavam a cena, calados. O homem do balcão se aproximou de nós para saber o que estava acontecendo, talvez ele se encorajou para defender a estranha intrusa por um ato de bravura para que aqueles que ali estivessem, sentissem orgulho ou ódio do mesmo. E num surto de movimentos, um corpo morto foi ao chão. Estava bêbada ao ponto de só observar os fatos e não fazer nada para interferi-los, apenas saí e entrei no carro, do meu lado, havia alguém sentado, não me importei, acelerei e saí na estrada rumo a sul, ao sul de lugar nenhum. Pude ouvir, então, o corpo que carregava em minha mala, balançava, batia contra a parede do carro, mole, morto.

 

Elizandra Joana

 

Pais e filhos

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    Quando criança, adorava o cheiro que meu pai exalava ao sair do banho, cheiro de sabonete, corria para seus braços, sentia seus cabelos molhados, ainda em gotas, ele me enchia de carícias, beijos e abraços. Olhava-me com amor, satisfação, zelo. Hoje, o maior nível de comunicação que temos é quando um pede ao outro que vá comprar mais pó de café e açúcar no mercado.

    Quando criança, em dias de domingo, ele me acordava com cócegas nos pés e, mais uma vez, me enchia de beijos e abraços. Hoje, ao acordar, não o vejo em casa, não o vejo em si mesmo.

    Quando criança, meu pai cozinhava para mim, fazia um macarrão simples, porém eu achava até mais gostoso que o da minha mãe, que ela não leia isto. Hoje, ele experimenta meus preparos, fica satisfeito, ou pelo menos aparenta ficar.

    Quando criança, morria de rir com suas palhaçadas, piadas e histórias. Hoje, não vejo um sorriso em seus lábios para comigo.

    Quando criança, saía junto dele para procurarmos frutas no campo, subíamos em árvores, fazíamos balanços. Hoje, a única coisa que fazemos juntos é beber um café em silêncio, olhos sobre nossas xícaras, mentes em mundos diferentes.

Elizandra Joana

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